Beloved in a Void

por abssyntho em

Segunda parte da historia iniciada em Hong Kong Garden. Levitando sob um pedaço de quartzo mnemônico perdido no cinturão de lembranças no Tempo dos Sonhos, Pilgrimage revisita décadas de amizade que julgava apagadas de sua mente pela húbris. Mas há razões que a própria razão desconhece como ele fatalmente descobriria.

Luzes. São muitas e espalhadas por todas as direções. Não importa para onde se olhe a imensidão enevoada esta cheia de pontos brilhantes. Alguns de maior tamanho que outros, difícil saber se estão mais próximos ou se a quantidade de luz que irradiam é conseqüência da energia dentro deles. Existem constelações inteiras, com tantas luzes que é difícil contá-las sem os Sentidos de Mago.

Mas não são os agrupamentos que atraem minha atenção. São as solitárias, distantes milhares de quilômetros das suas congêneres. Pálidos pontos azuis e amarelos e vermelhos e verdes e de cores diferentes do espectro; pairando sozinhas numa sina escolhida por elas próprias ou impostas pelas leis metafísicas? De certo que uma não exclui a outra, ao contrário se complementam, algo que apenas tardiamente entenderia.

Algumas são como bolhas de sabão, flutuando a esmo pelo infinito. A informação contida no seu interior pode ser obtida facilmente, apenas estenda o braço e penetre através da fina película. Outras, como aquela sob a qual pairo neste momento possuem formação mais rígida. Sua superfície é como um mineral, julgo que o quartzo é o mais próximo visualmente, embora seus componentes jamais seriam traduzidos numa linguagem compreensível pelos homens da ciência.   

Seu interior permanece inacessível para a maioria dos viajantes astrais, mas para mim é apenas uma questão de saber qual voz devo seguir – ou qual ignorar. Com um movimento de mão, seus segredos se abririam para mim, assim como suas fronteiras, causado dano irreversível a estrutura. Pó de estrelas é o que teria.

Em tempos recentes, optaria pela solução mais rápida. Mas aqui, prefiro apegar-me há um tempo em que a Húbris ainda não havia corroído minha Sabedoria até as camadas inferiores. Ignoro esta voz e opto pela segunda, a mesma que me vez entrar em hibernação no fundo de uma caverna nas altas terras escocesas.

O frio, a fome e os predadores da região teriam acabado com meu corpo físico em questão de dias. É o conhecimento antigo que me permite manter por anos esta última demonstração de arrogância. O orgulho me desviou do caminho uma vez, mas agora é a pedra fundamental na expiação de todos os meus pecados. Irônico. Mas a vida é irônica, principalmente quando se é um Desperto.

Se meu Eu físico não estivesse em segurança, difícil dizer se meu Eu astral ainda estaria aqui. Muitas são as historias de viajantes astrais cujas projeções jazem prisioneiras no Tempo do Sonho, após seus corpos terem sido mortos por inimigos ou pelas intempéries do mundo material. Pessoalmente nunca encontrei tais almas inquietas, por isso posso afirmar que tais histórias não passam de superstições entre os despertos.    

E mais uma vez, do alto de minha sabedoria, ponho a pedra final numa discussão que até hoje empolga magos de diversas Ordens. Livrar-se de velhos hábitos é mais difícil do que parece. Para um Mago, cauterizar a Húbris é um desafio equiparado aos trabalhos de Hércules.

 Quando começo a acreditar que minhas divagações não estão me levando a lugar algum e que seria melhor partir esse bloco de pedra ao meio, sinto-me sendo tragado para dentro.

...

À noite esta bem fria, como todas nesta época do ano em Manchester. A cidade parece sempre mais fria, talvez por conta dos bueiros, Sioux, Cho, nosso amigo Sheraphim e eu estamos próximos de um deles. O vapor que sai da tampa e que deveria ser quente, escapa numa lufada vagarosa, fria e intermitente.

O ano era 1986 e Cho, acertara em cheio o movimento do Tremere. O usurpador vinha escapando da justiça dos Guardiões do Véu há quase meio século, prolongando sua amaldiçoada existência desde a última década do século XIX. Sua identidade atual era a de Matthew Lee, pianista boêmio em pubs, bares e festas particulares; mas para fazê-lo curvar-se só precisávamos descobrir seu nome verdadeiro, um feito que até então nenhum dos seus perseguidores havia conseguido.

A experiência era vívida, era como reviver a cena novamente. O odor do lixo próximo ao bueiro, a tensão pela tocaia, o perigo que corríamos por invadir a casa do mago sem esperar pelos Setas. Tudo ficava ainda mais intenso pelo fato de acompanhar os acontecimentos sob meus próprios olhos – embora ironicamente, conseguisse sentir minha projeção próxima ao nosso esconderijo entre as sombras.

Foi quando tive o insight sobre a minha presença. Poderia o Eu da década de 80 ter notado minha própria projeção astral vinda quase 30 anos do futuro? Acho que os fantasmas astrais terão de esperar, pois este é um paradoxo capaz de dar um nó no cérebro de qualquer um.

Pilgri, concentre-se. Precisamos de você aqui”. Sioux chamou minha atenção em dois momentos distintos nesta confusão temporal. Meu Eu dos anos 80, ignorou a própria presença vinda do futuro, enquanto o Eu da segunda década do século XXI, ignorava as sensações provocadas pela imersão repentina no caldo de memórias, voltando a atenção para meu real objetivo.

Como um “fantasma do futuro”, minha função não é fazer turismo, mas sim conectar-se a mente de minha amiga Sioux. Já faz quase uma década desde a última vez que a vi. Embora seu comportamento temperamental tenha mudado pouco desde que nos conhecemos gostava de sua companhia. Ela conseguia ser bastante agradável quando queria impressionar.

Pensar em Sioux parece ter distanciado a homogeneização entre os “eus”.  Invadir lembranças das quais se faz parte pode causar ao viajante astral certa confusão. Só não esperava que a mesma fosse tão precisa, sinal de que encontrei a memória correta. Acredito que os eventos desencadeados nesta/naquela noite sejam/tenham sido os responsáveis por acender em minha velha amiga o amor pelo melancólico Cho.

Sioux nunca escondeu o que sentia por nosso companheiro de Cabala, embora Cho, como sempre reservado, ignorava as sutis investidas. Nosso companheiro sempre alimentou um profundo amor por Jade, sobrinha de seu estimado tio o Sr. Chang. Sioux sabia disso, mas ignorava os olhares, os burocráticos relacionamentos chineses e as responsabilidades com a cabala, que o impeliam a evitar qualquer relação mais intima com Jade.

Cho tinha receio de atrair sob Jade e seus descendentes a maldição que carregava. Ou talvez, como bom adivinho que era, esperou pelo momento ideal para assumir a relação. Jade e Cho estavam muito felizes quando os encontrei em Macau, em 2005, durante minhas peregrinações. Sioux nunca aceitou isto muito bem.

Como amigo, era meu dever aconselhá-la. Como irmão, confortá-la. Mas a família que cultivei nos últimos 30 anos não significou nada. Os esqueci por completo. Troquei seus sorrisos, problemas, vitórias e derrotas para satisfazer meus próprios anseios egoístas. A busca pela Ascensão me afastou daquilo que me dava força. Ofuscado pelo brilho do sol que me tornei, não vi o poço sem fundo em que quase caí.

Ainda tento escalar sua paredes e espero um dia alcançar-lhe a borda. Mas antes que isso aconteça, cuidarei para que o mesmo erro não recaia sobre você, minha velha amiga. Seu caminho ainda pode ser preenchido com luz, mas para isso Sioux, é preciso que você abandone de vez a escuridão. É a palavra de Pilgrimage, Mestre Thyrsus do Concílio Livre.

Truques novos podem ser ensinados a macacos velhos afinal.